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Início » José Lima, cofundador do Dr. Online, no “Querido Líder” do Observador: “O meu sonho é vender bem uma empresa”
José Lima, cofundador e CEO do Dr. Online, foi o convidado de um episódio do podcast “Querido Líder” da Rádio Observador. Durante a conversa com Ricardo Conceição e os especialistas em liderança Milton de Sousa e Jorge Medeiros, José Lima falou abertamente sobre as origens da empresa, os momentos mais difíceis da carreira, o modelo de negócio e os planos de expansão para os EUA.
O Dr. Online não nasceu numa sala de reuniões. Nasceu de uma conversa entre dois amigos com jipes velhos, cadeiras de campismo e uma lagoa ao fundo. José Lima e Tiago Cadeiras, melhor amigo e hoje sócio, costumavam sair à noite para pensar em voz alta — a identificar estratégias, ultrapassar dificuldades, ver para onde ir a seguir. Desse hábito de desligar para pensar saiu um negócio muito otimizado: enxuto em custos, em equipa, nas operações.
Em plena pandemia, com a sua empresa anterior — uma startup de publicidade em ecrãs em lojas — forçada a fechar, José Lima viu-se de repente sem rendimento e com tempo livre. Tiago, médico, também estava com menos trabalho. Os dois juntaram-se, identificaram o problema — as pessoas com dificuldades em aceder a cuidados de saúde — e um mês depois José Lima voltou com o site feito e a tecnologia desenvolvida. O Dr. Online arrancou.
Quando questionado sobre o pior momento da carreira, José Lima não hesitou: foi o fecho da sua start-up de publicidade. Tinham investidores, contratos com seguradoras e empresas de abastecimento, dinheiro comprometido — e tiveram de fechar tudo. Ficou sem saber como ia subsistir. Mas, como ele próprio diz, às vezes, há males que vêm por bem: foi precisamente dessa dificuldade que surgiu a oportunidade de criar o Dr. Online.
Entre fechar a empresa e arrancar com o novo projeto, passaram cerca de seis meses. Meses difíceis, mas que hoje encara com naturalidade. Para José Lima, a dissolução de uma empresa faz parte do percurso — quando o negócio dá, dá; quando não dá, é preciso aceitar e seguir em frente.
O Dr. Online liga pessoas com necessidades médicas a especialistas, através de videoconsulta. A plataforma tem back office próprio, sala de espera virtual e recepcionista online — nada de Google Meet ou WhatsApp, por razões de confidencialidade e certificação. O acesso aos dados é controlado, apenas os médicos acedem ao registo clínico dos seus próprios pacientes.
No início, quem dava consultas era o próprio Tiago Cadeiras, enquanto José Lima tratava da gestão operacional. Rapidamente perceberam que esse modelo não era escalável. A regra que adotaram a partir daí foi simples: sempre que uma tarefa repetitiva começava a consumir demasiado tempo, era altura de contratar alguém para a fazer.
Os médicos são recrutados pela rede de contactos de Tiago e avaliados quanto à sua adequação à cultura do Dr. Online — o perfil procurado é o de profissionais que encaram a saúde com altruísmo e que se entregam genuinamente ao paciente.
Em Portugal, 1,7 milhões de pessoas não têm médico de família e o tempo médio de espera para uma consulta ronda os dois meses. O Dr. Online posiciona-se para ocupar esse espaço — não para substituir o SNS, mas para se aliar a ele. José Lima é claro: o SNS é fundamental para a sociedade. Sem ele, os casos que o Dr. Online não consegue tratar não teriam para onde ser encaminhados. A aposta está nas situações agudas não emergentes, aquelas que não justificam uma ida às urgências mas que, sem acesso rápido a um médico, acabam por lá parar.
A visão é mais ampla do que a urgência pontual: o Dr. Online quer acompanhar o paciente ao longo da vida, com foco na prevenção: rastreios, acompanhamento crónico, consultas de rotina. Uma fidelização assente na saúde preventiva.
A internacionalização foi metódica. Portugal foi o ponto de partida, a Irlanda o primeiro teste externo — e hoje o mercado com maior volume no Dr. Online —, o Reino Unido a prova de fogo, com requisitos de certificação muito exigentes. Tudo isto para preparar a entrada nos EUA, um mercado competitivo mas com um problema de acesso à saúde que, como José Lima sublinha, não é exclusivo de Portugal.
A empresa tem sede em Nova Iorque e uma holding que detém os negócios em Portugal, Irlanda e Reino Unido. Está envolvida na rede da Techstars — o programa de aceleração que ganhou em Nova Iorque há dois anos —, e é com esse apoio que prepara o próximo passo. Quando questionado sobre a concorrência nos EUA, José Lima é direto: o facto de já existirem players no mercado é sinal de que o mercado funciona. Também há mercado para a Pepsi.
Com cerca de 38 pessoas — maioritariamente em regime remoto, com encontros presenciais à quarta-feira para quem quiser —, o Dr. Online cresceu de dois cofundadores a uma empresa multinacional em cinco anos. José Lima percebeu que era líder quando todos vinham perguntar a sua opinião. Hoje, a empresa tem team leaders autónomos e papéis bem definidos, de forma a evitar sobreposições e competição interna desnecessária.
A receita de liderança que partilha é a de ser um role model — com competências técnicas que justifiquem o lugar, e com a humildade de pedir desculpa quando se erra.
Quanto ao melhor momento da carreira, a resposta é o presente. Antes disso, pensou que tinha sido entrar para a Portugal Telecom — um emprego estável, para a vida, como toda a gente dizia. Saiu um ano depois para fazer o doutoramento. Depois não seguiu a carreira académica e foi para o empreendedorismo. Sempre o caminho menos trilhado.
Quando chegou a pergunta sobre os sonhos por concretizar, José Lima não deu uma resposta grandiosa. Deu uma resposta honesta: vender bem uma empresa. Construir algo suficientemente sólido e valioso para, um dia, transmiti-lo bem.
Ouça a intervista na íntegra na Rádio Observador.
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