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Início » Endometriose: “Ninguém sabe o quão incapacitante é para uma mulher”
Catarina Fernandes é uma criadora de conteúdos com mais de 100 mil seguidores que sofre da doença de endometriose. Neste episódio do podcast Dr.Online, Catarina conversa com o Dr. João Sequeira Alves, médico especialista em Ginecologia-Obstetrícia, sobre a doença, como convive com os sintomas, e a sua gravidez.
“Ninguém tem noção de quanto isto pode ser incapacitante para a mulher. Nos primeiros dias de menstruação, não quero estar com outras pessoas. Quero só estar na minha bolha. Porque estou tão desconfortável com a dor que só quero descanso.”
Desde cedo, Catarina Fernandes começou a sentir dores menstruais muito intensas, ao ponto de se sentir incapacitada para fazer alguma coisa. Tomava muita medicação para conseguir controlar as dores, pois só assim conseguia manter-se minimamente ativa. A sua mãe dizia-lhe que não era normal ter tantas dores menstruais, mas para Catarina este era o seu “normal”. “Não me levantava, ficava sem fazer nada. Se eu não tomasse medicação, era assim que eu me sentia: não consigo fazer nada, tenho de ficar deitada a suportar a dor.”
Ao longo do tempo, foi percebendo que esta perda de capacidade durante o período da menstruação não é um padrão habitual nas mulheres. Decidiu então procurar ajuda profissional, e obteve o diagnóstico de endometriose.
Começou a tomar a pílula de forma contínua para amenizar os sintomas, e revela o quanto este método é importante para viver melhor o seu dia-a-dia nestes períodos mais dolorosos. O facto de controlar a sua menstruação, e saber quando vai aparecer, dá-lhe segurança e previsibilidade. Antes de iniciar a toma da pílula, não podia prever quando ia acordar com dores intensas, incapacitando-a de sair da cama, o que pode ser bastante complicado quando se quer cumprir uma agenda, e não falhar compromissos profissionais.
O seu maior sonho sempre foi ser mãe. Mesmo com o diagnóstico de endometriose, “eu nunca acreditei que não conseguiria ser mãe. Acho que levei a doença também com alguma leveza.”
O facto de ter obtido o diagnóstico numa fase muito inicial ajudou-a a conseguir concretizar este sonho. “E também confiar na médica. Acho que ela sempre me transmitiu muita calma, muita esperança.” Catarina diz que foi sempre mantendo a calma, evitando criar ansiedade neste processo.
Como criadora de conteúdos, é esta a mensagem que tenta passar nas redes sociais. “Porque há muitas mulheres que me procuram: Tens endometriose? Conseguiste ser mãe? Como é que tu conseguiste? O que é que tu fizeste?”
Reforça a importância do diagnóstico: “para sermos acompanhadas e para no futuro conseguirmos então ser mães.”
A endometriose provoca dor pélvica, o que pode tornar-se um impedimento para uma vida sexual prazerosa. Nesta conversa, o Dr. João Sequeira Alves e Catarina Fernandes falam abertamente sobre como conseguir prazer e conforto numa vida íntima a dois, quando a doença da endometriose está presente.
“E a intimidade também vai um bocadinho para além da relação sexual, não é? Muito.”
Para Catarina, o apoio e a compreensão do parceiro são fundamentais. Em dias mais complicados devido à menstruação, ele já sabe que Catarina tem menos disposição para falar, e com o humor mais afetado. “Agora precisas de ser um bocadinho mais compreensivo comigo”, diz-lhe sem receios, sendo que a comunicação e compreensão sobre os sintomas da doença ajudam bastante na dinâmica do casal.
A fisioterapia pélvica e o relaxamento da musculatura pélvica revelam ser preciosas para uma vida sexual mais confortável e até sem dores. “Depois de ser mãe comecei a fazer fisioterapia pélvica, o que me ajudou bastante. Mas antes de engravidar, nunca me passou pela cabeça fazer. O que é totalmente errado. Depois de começar a fazer percebi que me ajudava muito.”
“Eu acho que é importante falarmos cada vez mais sobre a endometriose para as pessoas terem a noção do que é a doença. Há muitos diagnósticos que ainda não foram dados porque as pessoas não têm informação. E é importante serem acompanhadas.”
Lembra que ainda há muita gente que não compreende a doença nem os sintomas, podendo até achar que estas mulheres “estão mal-humoradas, que é o feitio, o mau feitio.” Algumas pessoas chegam a julgar que é “mau humor da mulher.”
Mas por outro lado sente que a sociedade está a caminhar num bom sentido: há mais informação disponível, mais médicos falam publicamente sobre o assunto, e vemos mulheres com endometriose a passarem os seus testemunhos. “É tão importante não escondermos, e não achar que é só um problema nosso; há tantas mulheres a passar por isto e nós podemos, de alguma forma, ajudar. Acho que é continuarmos neste caminho.”
Um grande passo neste sentido é a lei publicada recentemente, e com efeitos já neste mês de Abril, que dá direito a faltas justificadas ao trabalho e às aulas até três dias consecutivos por mês, sem perdas de direitos, a mulheres que sofrem de endometriose ou adenomiose.
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